A empresa onde trabalhei antes de virar comediante tinha uma moldura com os valores na recepção.
Eram cinco valores. Cada um numa linha. Com aquela fonte que é usada em slides de RH desde 2009 para comunicar que a empresa levou a coisa a sério, mas não tão a sério que contratou um designer de verdade.
Integridade. Inovação. Excelência. Respeito. Pessoas.
Eu passava por essa moldura todo dia. Nunca acreditei em nenhuma das cinco palavras.
O problema com "Pessoas" como valor corporativo
"Pessoas" é um valor muito ambicioso para uma empresa que demitiu 40 funcionários por e-mail no dia 24 de dezembro.
Não estou inventando. Aconteceu. O e-mail tinha o assunto "Atualização importante sobre a equipe" — que é o equivalente corporativo de chamar o breakup de "uma conversa sobre nós."
Eu não estava na lista, o que tecnicamente me tornava um sobrevivente. Na prática, me tornava a pessoa que tinha que aparecer no dia 2 de janeiro e fingir que a moldura de valores ainda fazia sentido.
Por que empresas colocam valores na parede
Existe uma teoria, que eu levei um tempo para entender, de que valores corporativos não são descritivos. São aspiracionais. A empresa não está dizendo que é íntegra — está dizendo que quer ser.
Isso resolve o paradoxo logicamente.
O problema é que ninguém explica isso para os funcionários. Então você tem um documento que diz "integridade" e uma empresa que demite por e-mail no Natal, e os dois coexistem porque um é aspiração e o outro é realidade, e ninguém nunca disse em voz alta que essas são categorias diferentes.
Na comédia, chamamos isso de setup sem punchline. É a piada mais frustrante de ouvir porque você sabe que tinha potencial e alguém desistiu no momento errado.
O que me fez sair
Não foi o e-mail de dezembro. Não diretamente.
Foi a reunião de janeiro onde o CEO apresentou a estratégia para o ano com os mesmos cinco valores na apresentação, como se nada tivesse acontecido, com uma energia de quem genuinamente não entendia por que o humor na sala estava estranho.
Percebi naquele momento que o problema não era falta de ética. Era falta de consciência. A empresa não sabia o que era. Tinha um autoconhecimento corporativo de adolescente de 14 anos — muita certeza, pouca calibração.
E trabalhar num lugar que não se conhece é mais cansativo do que trabalhar num lugar que é abertamente ruim.
Num lugar abertamente ruim, você sabe com o que está lidando.
A piada mais honesta que já fiz sobre isso
Tenho um bit no meu especial onde digo:
"Toda empresa que coloca 'pessoas' como valor corporativo está, na verdade, completando a frase. A frase completa é: 'pessoas... são o nosso principal custo variável.'"
As pessoas sempre riem. Mas o riso que me interessa é o que vem dois segundos depois, quando alguém no público percebe que está rindo de uma coisa que aconteceu com ele.
Esse é o tipo de riso que faz alguma coisa.
(Este post é rascunho — será revisado com prompt-mestre antes da publicação.)